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Negativa de cobertura por plano de saúde não gera dano moral automático: o novo entendimento do STJ

  • Foto do escritor: Jessica Barros
    Jessica Barros
  • há 12 horas
  • 3 min de leitura

A judicialização envolvendo planos de saúde é uma das mais recorrentes no direito do consumidor e no direito à saúde. Entre os pedidos mais frequentes está a indenização por danos morais decorrente da recusa de cobertura de tratamentos médicos.


Recentemente, porém, o tema passou por uma importante redefinição jurisprudencial no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que fixou uma tese vinculante sobre o assunto no Tema Repetitivo 1.365.

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A decisão estabelece que a negativa indevida de cobertura não gera automaticamente dano moral, exigindo a demonstração concreta de prejuízo extrapatrimonial ao paciente.


A tese fixada no Tema 1.365


No julgamento realizado pela 2ª Seção do tribunal, sob relatoria do ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, foi consolidado o entendimento de que a recusa indevida de cobertura médico assistencial por operadoras de plano de saúde não configura, por si só, dano moral presumido (in re ipsa). Tema 1365


Segundo o tribunal, a indenização dependerá da comprovação de circunstâncias concretas capazes de demonstrar abalo psicológico relevante ou violação efetiva aos direitos da personalidade do beneficiário.


A tese busca uniformizar a jurisprudência nacional e orientar o julgamento de processos semelhantes em todo o país.


O que significa dizer que o dano moral não é “in re ipsa”


Durante anos, parte da jurisprudência admitiu que determinadas condutas gerariam dano moral de forma presumida — isto é, sem necessidade de prova específica do prejuízo.


Com o novo entendimento do STJ, a negativa de cobertura por plano de saúde não se enquadra automaticamente nessa categoria.


Isso significa que, mesmo quando a recusa for considerada indevida ou abusiva, o consumidor precisará demonstrar os efeitos concretos da conduta, tais como:


  • sofrimento psicológico significativo;

  • agravamento do estado de saúde;

  • exposição a situação de risco relevante;

  • violação à dignidade ou aos direitos da personalidade.


Assim, o tribunal passou a distinguir o inadimplemento contratual da efetiva ocorrência de dano moral.


A negativa abusiva continua podendo ser questionada


A decisão não altera o dever das operadoras de planos de saúde de cumprir suas obrigações contratuais e legais.


Sempre que houver indicação médica e cobertura prevista — seja no contrato, seja na regulamentação aplicável — a negativa pode ser considerada abusiva, permitindo ao consumidor buscar judicialmente:


  1. a autorização do tratamento;

  2. o custeio do procedimento;

  3. o reembolso de despesas médicas;

  4. eventual indenização por danos morais, desde que comprovado o prejuízo extrapatrimonial.


Portanto, o julgamento não legitima recusas indevidas, mas apenas estabelece critérios mais rigorosos para a configuração do dano moral.


Impactos práticos da decisão


A fixação da tese em recurso repetitivo tende a produzir efeitos relevantes no contencioso envolvendo planos de saúde.


Entre as principais consequências estão:


  1. maior exigência probatória para pedidos de indenização por dano moral;

  2. redução de condenações automáticas baseadas apenas na negativa de cobertura;

  3. análise mais individualizada das circunstâncias do caso concreto.


Com isso, o STJ procura equilibrar dois interesses relevantes: a proteção do consumidor e a necessidade de evitar a banalização da indenização por danos morais.


Conclusão


Embora a preocupação com a banalização do dano moral seja compreensível, o entendimento merece reflexão crítica. A recusa de cobertura costuma ocorrer justamente em momentos de fragilidade do paciente, quando a expectativa legítima de acesso ao tratamento é frustrada. Exigir prova específica do sofrimento psíquico nesses contextos pode acabar impondo um ônus probatório excessivo ao consumidor.


O desafio que se impõe à jurisprudência, portanto, será aplicar a tese sem desconsiderar que determinadas negativas — sobretudo quando envolvem tratamentos essenciais — podem ultrapassar o mero inadimplemento contratual e atingir diretamente a dignidade do paciente.

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